Luso – “devemos bater palmas a todos os que merecem, não só a quem nos convém”

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Luis Carlos Mutaburi Eduardo, artisticamente conhecido por “LUSO” é um Rapper Angolano nascido em Luanda aos 9 de Junho de 1988. Residiu em Portugal entre 1998 a 2010, na conhecida Margem Sul de Lisboa .


Começou a fazer RAP nas ruas do Miratejo, bairro considerado por muitos como o berço do Hip Hop Tuga, até que em meados de 2004 a 2005 com os amigos Máximus e Nucho, formam o grupo 3PLA Aliança. Miratejo é um bairro onde o RAP é vivido na primeira pessoa, e com influências de grupos como Black Company, THC, 3 Ilegais entre muitos outros. 3PLA ALIANÇA é um grupo que retratava as dificuldades enfrentadas pela comunidade negra em Portugal. Vencedor de concursos de música moderna como grupo e depois individualmente, Luso tem um EP lançado e designado Primeiro Passo.

Há dois anos, havia assinado pela Cave Play, liderada por Kid MC, e pela mesma agência, conseguiu conquistar algum espaço a nível do movimento Hip Hop. Dono de uma escrita bastante cuidada, Luso é o nosso convidado para uma breve entrevista.

Chegaste ao país depois de uma década, quais são para ti as grandes diferenças e o que tens estado a implementar de positivo?
Fui para Lisboa com 8/9 e voltei quase 11 anos depois, logo as diferenças de como estava Angola quando sai de cá e como encontrei quando voltei são muitas mas fica-me mais fácil falar de como está do que como estava por ter saído de cá muito novo e sem a capacidade de absorção que tenho hoje. Porém é legitimo falar de diferenças naquilo que penso ter sido a maior fonte motivacional para os meus pais me terem “mandado” para Portugal, embora não estejamos ainda aonde se pretende penso haver uma evolução no ensino de hoje em dia em Angola, prova disso é que existem pessoas que nunca de cá saíram mas têm uma capacidade intelectual equiparada a qualquer outra pessoa e são potencialmente capazes de assumir qualquer cargo de chefia.

Enquanto emigrante, Portugal me fez crescer como pessoa e profissionalmente, comecei a trabalhar com 16 anos num Restaurante Mac Donalds isso para fugir as “facilidades” que a vida do crime me poderia ter dado sendo que eu vivia num bairro propenso a criminalidade, paralelamente foquei-me nos estudos em Administração (Gestão) que é a área aonde trabalho neste momento e do que colhi aplico nas musicas o que adquiri enquanto pessoa para poder ajudar no crescimento social de quem me ouve e profissionalmente uso as capacidades adquiridas nos estudos para contribuir para uma Angola melhor.

Nas redes sociais, foste uma das pessoas que se mostrou conta o fluxo migratório por parte dos jovens angolanos para Europa. O que está na base deste pensamento?
Não sou contra quem emigra em busca de melhores condições de vida, tanto é que a maior parte das pessoas que conheço e que têm uma ligação muito forte a mim vivem em diferentes países do mundo distantes das suas terras Natal, só não sou a favor do atirar-se a toalha ao tapete dizendo que se desiste de Angola sabendo que se tem a capacidade de pelo menos tentar mudar algo aqui, sim emigrei por motivos também de força maior, dotei-me de conhecimento e acho que este conhecimento agora deve ser aproveitado e aplicado na minha terra Natal, a mudança é algo que não acontecerá da noite para o dia e tenho plena certeza que nem o meu filho á irá sentir, mas eu preciso ser um dos que colocou uma pedra na construção de um novo país para os meus bisnetos e não um dos que observou de longe o desmoronar da minha terra Natal. O que eu quero e espero, é que a maior parte dos cérebros jovens não pense em abandonar o barco.

Quais os grandes males da juventude angula e que atitudes positivas gostarias de realçar?
A necessidade que temos de crescer rápido e sem esforço, a falta de comprometimento que temos com o desenvolvimento social, a cedência rápida a atos de corrupção, o querer ter invés de poder ser… infelizmente é tudo um reflexo do espelho que nos foi imposto por alguns períodos do nosso estilo governamental, mas o que podemos pôr como positivo é que não é generalizado, ou seja, existe uma grande franja de jovens comprometidos com o bem estar de outros e que já geram emprego, elucidam mentes, ligados ou não a ativismos sociais de uma ou de outra forma vão para diversas melhorias em diversos sectores.

Com a extinção da Cave Play como agência de artistas, qual tem sido a tua estratégia e o que será daqui pra diante?
A extinção da Cave Play caiu como surpresa para todos nós e confesso que eu não pensei que me fosse desvincular tão cedo da produtora,
porém neste momento o caminho segue e como tinha já um trabalho preparado tenho musicas para dar aos meus seguidores durante este ano com o Projecto Ilusionista. Estrategicamente penso em divulgar as musicas periodicamente tal como fazia antes da Cave para promover mais o meu nome que ainda é “pequeno” e quem sabe conquistar um novo parceiro/produtora tal como fiz com o Kid.
Em termos da distribuição de músicas por via digital, pensas ser necessário a distribuição de forma gratuita ou a venda digital deve ser já um desafio diário?
Penso que isso depende de qual o objetivo do artista e em que patamar o mesmo já se encontra, no meu caso não tenho ainda nome suficiente para ter um número considerável de seguidores a aderirem a uma venda digital, logo uso a divulgação das musicas gratuitamente para conquista mais seguidores e posteriormente quem sabe poder vender aos já fidelizados. O mercado está cada vez mais exigente, todos os dias sai uma musica nova e antes de pores a tua a venda é necessário que saibas que alguém á vai comprar (LOL). A minha meta é com certeza poder conseguir vender de forma digital ou física o meu próximo trabalho, daí investir na divulgação durante este ano para o próximo ano conseguir atingir a meta.

Os músicos podem ditar tendências e coagirem os fãs a terem de pagar para terem as músicas por via digital?
Sim, fazer-se musica é o mesmo que constituir uma empresa e se investes para ter um produto final é necessário que tenhas algum retorno, claro que haverão sempre ameaças porque vendes hoje e amanhã tens o teu produto gratuitamente na internet, mas como disse no paragrafo anterior, é muito importante termos seguidores fieis e estes sim saberão a necessidade de pagar para obter a musica do ídolo caso este os instrua a comprar a sua musica desta ou daquela forma.

Durante esta quarentena, tem estado a acontecer diversos concertos gratuitos por via das redes sociais. Recentemente, o rapper Alirio reagiu e mostrou-se contra estes concertos, alegando que devem estar associados a marcas e ganharem com isso. Qual o teu ponto de vista?
No fundo não é grátis porque as pessoas pagam para ter internet e assistir o show no insta ou no Facebook (LOL) a única diferença é que o artista não tem lucros financeiros nisto caso não esteja associado a uma promotora de eventos ou marca que o pague para tal e quem ganha são as redes telefónicas (LOL). Lá voltamos a questão fidelizar os seguidores e eu sou apologista que se tem capacidade para tal pode o fazer, principalmente nesta fase em que reclamamos de todo o tipo de gastos. No fundo todos nós nos queremos unir as marcas e se as marcas não se quiserem unir a nós? Deixamos de existir?

Relativamente a pandemia que assola mundo, o que esperas do nosso país nos próximos dias, qual a tua opinião sobre o Estado de Emergência e do incumprimento por parte de muita gente?
Eu espero que os números se mostrem contrários as expectativas e que não se resiste tantos casos positivos conforme se tem especulado, porém, do que espero para o que se pode ter vai um longo caminho e este depende do cumprimento rígido das medidas de prevenção, era imperativo que se decretasse o Estado de Emergência com base no que temos assistido nos outros países, entretanto a realidade de algumas famílias não permite que o decreto seja taxativamente como nos outros países e eu espero que o Estado continue também a olhar por ai. Sempre que vou a janela, vejo exatamente as mesmas pessoas fazendo as mesmas coisas todos os dias e percebo que nem todos estamos a levar a serio o Covid-19, o que é lamentável, talvez quando acontecer com um familiar nosso olhemos para coisa de um modo diferente.

És das pessoas que marca presença nos vários eventos a nível de Luanda, cantando ou não. Fazes por gosto, por estratégia profissional ou achas que faz parte do apoio ao movimento?
Primeiro por gosto, porque eu amo mesmo o Hip Hop especificamente o RAP e hoje lamento ter ficado tanto tempo ausente deste mundo. Segundo porque eu sou muito apologista da união e da entreajuda, nós devemos bater palmas a todos os que merecem e não só aos que nos convém, então eu tanto posso estar no palco a cantar para os que me foram ver, como estar na plateia a aplaudir os que eu fui ver.

Tem algum evento realizado em 2019 que gostarias de realçar?
São bué, mas destaco o Show do Bob da Rage Sense porque sou admirador e seguidor dele há muito tempo, Luanda Hip Hop Fest porque embora não tenha ido para cantar cruzei-me com people que admiro muito, os espetáculos da RRPL aonde também tenho ido como espectador, os meus concertos feitos no First Place com o Kool Klever que de certeza ficarão na memoria para sempre e o debate aberto sobre o Estado Da Cultura realizado no Bahia.

Mono Stereo, Phedilson Ananás, MC Cabinda, Kool Klever e Valete. Se tivesses diante da mesa, uma proposta para fazer um trabalho colaborativo com um destes nomes, com 7 faixas, 7 vídeos e todo patrocínio garantido para divulgar e promover, que nome escolherias?
Respeito todos e encaixar-me-ia numa faixa com qualquer um deles com a maior honra possível, mas neste momento quem está mais dentro daquilo que sou enquanto Rapper é o Phedilson, logo seria com ele que entraria num projeto com tudo pago ehehehh.

Neste ano divulgamos a lista dos artistas mais destacados de 2019, aonde foste um dos nomes na lista inicial. Qual a tua opinião, relativamente aos nomes escolhidos?
É aceitável, penso que não mudaria nenhum porque todos os que la estão trabalharam muito em 2019. A ideia é mesmo só bumbar para sairmos na lista de 2020 (LOL).

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