Mais de 250 pessoas no Show de MCK em Lisboa a favor dos 15 activistas detidos || Fonte : Rede Angola

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Uma plateia de mais de 250 pessoas encheu o Musicbox em Lisboa para o primeiro concerto de MCK na capital portuguesa. Um espectáculo marcado pela solidariedade com os presos políticos em Angola, cuja receita reverteu para as famílias dos activistas.

Pedro Coquenão explicou logo na apresentação o que se cantava ali: “Liberdade Já”, a frase que se tornou num movimento de apoio aos 15 activistas detidos. “Penso que todos sabem ao que aqui estamos. O mote é isto, foi isso que fez unir o mais novo e o mais-velho”, sublinhou o músico, cérebro do projecto Batida.

O mais novo, MCK, dividia o cartaz com o mais-velho Bonga, cujo disco mítico Angola 72 esteve presente em parte do recital, projectado no fundo do palco. Além disso, também se mostraram as fotografias dos activistas detidos e essa frase de “Sei lá Quê” (“Quem fala verdade vai pró caixão”) lembrando Arsénio Sebastião “Cherokee”, morto em 2013 por elementos da guarda presidencial por estar a ouvir MCK.

Se um concerto de MCK será sempre um concerto político, o de ontem acentuou essa dimensão, assumindo o carácter de intervenção. Um concerto para poder abrir os olhos dos presentes sobre a situação dos presos políticos em Angola. E, se possível, conseguir abrir os olhos de outros mais que possam vir a saber através da mensagem que levem os presentes ontem no Musicbox.

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“Abre o olho”, repetiu Bonga, enquanto solava na dikanza. “Não tenham medo nunca”, exclamou o cantor que estava ali para passar o seu testemunho a MCK, a quem, na entrevista ao Rede Angola, afirmou admirar pela sua “pertinência e coragem”. E MCK cantou: “África é o berço/ e quem está no berço, dorme;/produzimos pouco e morremos à fome”. E “Este é o país do Pai Banana/Presidente é deus./Quem critica, profana.

MCK que cantou “Angola não tem dono, o país é de todos nós”, acompanhado em uníssono pela plateia, lembrou a letra do hino e os ensinamentos da escola para quem cresceu nos anos 1980 no país, “a caneta era a arma do pioneiro e estudar era um dever revolucionário”, para demonstrar como hoje as coisas são diametralmente opostas. Mas quem aprende não esquece.

Para quem abriu o disco Nutrição Espiritual com uma frase como esta: “a verdade é como tintura, arde mas cura”, não se esperaria outra coisa que não fosse o retrato do quotidiano de um certo país espiritualmente doente, preso no materialismo, injusto e repressor. Olhando para as fotografias dos 15 activistas detidos, projectadas no palco, afirmou: “Aí estão os presos do Pai Banana”.

“País do Pai Banana” seria um dos temas cantados, mesmo antes da entrada de Aline Frazão para partilhar palco e três canções, mas o primeiro momento de emoção chegou logo ao segundo tema (abriu com “Mandela Day”): “Hino de um Kunanga”, escrita a meias com Luaty Beirão, aliás Ikonoklasta, um dos 15 detidos. A música parou antes da entrada da segunda estrofe, porque MCK quis ressaltar que aquela parte havia sido escrita pelo seu amigo agora preso.

No entanto, emoção, emoção, sentiu-se na sala com a entrada de Bonga. O respeito dos presentes pelo mais-velho é do tamanho das lágrimas que afloraram a alguns olhos. E será talvez por isso – pelo respeito que Bonga merece -, que a intervenção deste concerto político, deste espectáculo de solidariedade pelos activistas detidos em Angola, possa voar mais alto que o tecto do Musicbox e chegar a quem tem andado distraído com a repressão política na banda. MCK apresentou-o assim: “Existe um mais velho, mais angolano do que eu. Ele é a angolanidade.”

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Não que MCK precise de ajude para fazer subir as letras do raso a que muitas vezes as letras do hip hop estão votadas. O autor de Proibido Ouvir Isto é um poeta urbano, um cronista social de primeira qualidade, conhecedor dos meandros do português e do luandense, esse dialecto meio gingão que mistura português com kimbundo e a sobrevivência do mais forte. “Cidadão angolense acorda antes que o sono t’enterra/se deres ouvido à minha poesia conhecerás/a cara e o nome do mosquito que nos ferra/saberás que a causa do caos do povo não foi apenas a guerra.”

MCK é um artista que acredita que alguém precisa de “levantar a voz”, “exigir respeito” e que canta como quem grita, para despertar um povo da letargia: “Angolano acorda”.  Como lhe chamou Valete, outro dos que com ele partilharam ontem o palco (além do DJ João Gomes, dos Cool Hipnoise, também estiveram Betinho Feijó, guitarrista, e Sacerdote, percussionista): MCK é “serviço público em Angola”.

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No final do concerto, MCK esteve à conversa com o Rede Angola nos bastidores onde, depois do calor do palco, manteve a mensagem política. “O concerto Liberdade Já! aconteceu cá e em Luanda, o importante para nós é fazer com a convicção de que estamos dentro daquilo que são os barómetros jurídicos legais. Estamos na observância da Constituição nacional, do respeito, e daquilo que é a cidadania. Estamos a apelar pela nossa liberdade. O nosso hino também pede, a Constituição nos oferece. Infelizmente a realidade não tem proporcionado”.

MCK referiu o desafio provocador que foi actuar pela primeira vez para um público como aquele que o aplaudiu em Lisboa. “É um desafio mais excitante, principalmente porque estás com uma maioria que não ouviu o teu trabalho. Há muita gente que ouviu pela primeira vez, outros que acompanham à distância. Cantar em Luanda é sempre muito mais fácil. São pessoas que não só ouvem o teu trabalho como vivem todos os dias as letras, é provocador”.

Sobre a diferença entre o que estava à espera e que acabou por acontecer: “Esteve acima das expectativas. Nunca fiz uma apresentação minha aqui, felizmente tivemos a sala cheia, com pessoas emocionadas e com interesse em ouvir. Maior do que isso é a satisfação pelo facto de termos um show com o objectivo de ajudar as famílias dos detidos, e com a sala cheia ajuda-se mais”.

A meio do concerto MCK anunciou que todo o lucro arrecadado com os bilhetes serão revertidos para as famílias dos 15 presos políticos. A informação só foi dada no local, surpreendendo o público, porque, segundo o rapper, a ideia não era usar isso como “instrumento de marketing. Propositadamente, queríamos que viessem por si só, de forma natural e espontânea, e mostrar que a presença delas é preciosa por estarem aqui”.

Frase MCKO encontro de gerações, como disse o rapperpara definir a sua actuação com Bonga, foi um dos momentos mais aplaudidos pelo público. No fundo da sala, as pessoas tinham dificuldade em abrir a porta para ver o Kota cantar. MCK explica que o “inicialmente as mensagens do Bonga eram contra o regime colonial. Depois passaram ao desejo de Angola ter paz”, a sua geração abraça outra causa: “vem dar continuidade, vem exigir que Angola tenha uma governação transparente. Que seja democrática. Por conta disso temos pessoas detidas, é um desafio de continuidade ao que o trabalho do Bonga, Urbano de Castro, Teta Lando começaram”.

“Houve um interregno, a década de 1980 não produziu muitos artistas com esse sentido mais orientador, mais político, crítico e a minha geração – do Ikonoklasta, Mbanza, Carbono – vem trazer novamente o discurso da necessidade de construção de um país diferente”, concluiu.

Quando a burocracia permitir, e logo que o visto seja aprovado, MCK estará no Brasil onde vai encontrar-se com outros rappers de intervenção actualmente com um especial interesse no contexto social e político de Angola. Da parceria será divulgado um novo apelo pela libertação dos presos políticos.

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Conhecidos e menos conhecidos

Aline Frazão

“O convite para participar no concerto veio através do Pedro [Coquenão], que esteve a produzir o concerto. Aceitei pelo teor simbólico. É uma honra estar aqui, neste encontro importante da música angolana, com Bonga e MCK. MCK representa a música de intervenção angolana. A prisão dos activistas é um, aliás, é ‘o’ tema da actualidade política e não pode ficar no esquecimento. Estamos alerta porque eles continuam lá, naquelas condições. Não podemos baixar a cabeça. Se a música fizer isso, então eu, como cantora, sinto que é importante fazer parte.”

Pedro Coquenão

Falando sobre o facto de estar na organização de três manifestações e agora deste concerto: “Faço o que posso. Vou respondendo às situações, encontro pessoas semelhantes. Esse activismo não é de agora, mas as prisões tornaram tudo mais intenso. As prisões são sintomas da doença. Não me vejo como activista, reajo ao que se passa à minha volta. Hei-de continuar a reagir.

O Ikonoklasta esteve cá numa altura em que o Carbono esteve preso, e estávamos três em frente ao Consulado de Angola, agora somos muito mais.
O que o K dizia era que todo esse processo de cantores que se passou nos anos 1970, e com este livro (Diamantes de Sangue, com recorde de downloads no site da Tinta-da-China), faz parte do processo de passar da ditadura à democracia. Toda a história cíclica de artistas a tentar construir uma nova identidade e a tentar mostrar o que não passa nos média também está presente nessa história dos anos 1970, em que não está só o Bonga. Tudo isto faz parte de um processo maior.”

Mauro Mota, angolano, estudante, residente em Lisboa há um ano

“Foi um bom espectáculo, um concerto agradável. O MCK abordou vários assuntos. Já o conheço há muito tempo mas, por acaso, é a primeira vez que o vejo em palco. MCK e Bonga fizeram uma actuação incrível, também gosto do mais-velho. É muito respeitado, principalmente aqui em Lisboa. A detenção dos activistas é um problema que tem de ser resolvido. Se as pessoas estão detidas e não fizeram nada têm de ser libertadas. Ele [MCK] fez muito bem em pedir isso, para as pessoas apoiarem.”

Wilma Moisés, angolana, vive entre Lisboa e Londres, faz editoriais de moda, marketing e comunicação

“É a primeira vez que estou a ver o MCK, já ouvi muitas músicas dele, da Aline, do Valete, mas nunca tinha visto o MCK em Lisboa. Em Londres é mais difícil, passa-se muito mais coisas de cultura angolana em Lisboa. Vim sozinha porque gosto muito do CD [Proibido Ouvir Isto], então disse: não interessa, senão uma pessoa não sabe quando vai ver de novo. Gosto muito das letras dele, tem uma mensagem muito consciente e tem uma visão de Angola muito moderna e honesta. Muitas pessoas pulam um bocado aquilo que vão dizer no discurso, acho que essa parte da agressividade mais honesta é muito importante e é raro hoje em dia.

“Já passaram 70 dias desde a prisão dos activistas, enquanto se falar disso, a causa existe. Quando deixar de ser assunto, deixa de existir. É importante haver concertos como este e ter artistas que dão a cara pela causa para continuar a haver assunto, porque o objectivo de quem fez aquilo é que as pessoas sejam esquecidas. Toda gente devia apoiar, usar a camisola e fazer também a sua marcha para haver liberdade porque hoje foram eles, amanhã podemos ser nós.

“Vivemos numa ditadura silenciosa e um acto como esse lembra que vivemos numa ditadura. Quem passou algum tempo fora questiona se nessa sociedade há espaço para nós. A partir do momento que evocamos um discurso que não seja de acordo com o que eles acham que é correcto também pode acontecer alguma coisa, no final de contas, há medo. Amanhã vais apanhar um avião, visitar a tua mãe, procurar um emprego, e não sabes até que ponto é que podes falar e defender o que queres. Eu vou voltar, não consigo fazer o desligamento, mas se calhar vou ter que controlar algumas coisas que digo. O maior medo que temos é de desaparecer e ninguém querer saber.”

João Malho, português

“Gosto da mensagem do rap do MCK e também defendo a liberdade dos 15 activistas. O meu pai, que esteve em Angola, também foi preso antes do 25 de Abril. Penso que Portugal devia agir como irmão neste caso.”

Rui Pereira, português, mãe angolana (um dos cinco integrantes do grupo de hip hop Grognation)

“Acompanho nas notícias a actualidade de Angola, nem sempre acredito em tudo o que vejo. Angola estava no bom caminho, ainda assim está no bom caminho, mas as pessoas com mais posses têm acessos a mais coisas, a classe trabalhadora também tem que saber o que pode fazer para ter educação, saúde.

“Tem de haver mais transparência nas informações. O governante já está no poder há muitos anos, por um lado há a mensagem de confiança mas também não há transparência. Falta abertura e uma nova visão sobre a democracia. É isso.”

Harold Tembe, moçambicano, vive em Lisboa (outro dos integrantes do grupo de hip hop Grognation)

“Eu faço rap, conhecia o Ikonoklasta, um dos detidos. Tenho acompanhado nas notícias o caso. Acho a situação muito parecida à de Moçambique. Os dois países têm problemas com a falta de liberdade de expressão. Por exemplo, Azagaia e MCK têm ideias muito parecidos retratando a realidade. Os Estados africanos deviam incentivar os jovens a estudar. Se eles [os activistas] não estavam a fazer nada, estavam a ler um livro, não deviam ser detidos. Os governantes deviam mudar essas situações para que os cidadãos tenham a vida que merecem.”

Fonte: http://www.redeangola.info/especiais/duas-centenas-e-meia-de-olhos-para-abrir/

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