Pesquisadores de Universidades brasileiras estudam letras do grupo “Fat Soldiers” pela qualidade literária

Pesquisadores de Universidades brasileiras estudam letras do grupo “Fat Soldiers” pela qualidade literária

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@Edivaldo dos Santos

No âmbito de uma pesquisa sobre Rap e literatura nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, as letras do grupo angolano Fat Soldiers têm sido objecto de estudos de pesquisadores brasileiros da Universidade de São Paulo e Universidade Estadual do Mato Grosso pela qualidade literária, profundidade na abordagem e o comprometimento com causas sociais que afectam o continente Africano.

O grupo “Fat Soldiers” é um dos nomes que tem ganhado destaque no cenário do rap angolano. Formado por Soldier V, Timomy e M.P, o grupo começou seu percurso em 2010, com o lançamento da primeira mixtape “Mentes da Rua”. “Fat Soldiers” tem denunciado as condições de vida dos pobres e dos oprimidos de Angola através de letras subversivas e ácidas. O último single lançado pelo grupo chama-se “Eu recuso-me”, do disco “Sobreviventes vol. 1”, que pauta um discurso contra a pobreza e a desigualdade, denunciando a concentração de riqueza em um dos países com maior crescimento econômico do continente africano. O alto teor crítico das letras do grupo demonstra uma postura de engajamento, como é possível observar
nas músicas “Verdades” e “Berço de lata”, que retratam as realidades suburbanas, a degradação social e espacial e a corrupção sistemática que assola o país. Nessa entrevista, o grupo fala sobre o passado angolano, as lutas pela independência, a atual conjuntura de Angola e questões referentes a música, estética e utopia.
1. NO PERCURSO ANCESTRAL
Gostaríamos de conhecer um pouco acerca da origem de cada um dos integrantes do grupo: nascimento, família, estudo.
R.: Vanderson (Soldier V), Daniel (M.P) e Timóteo (Timomy) nascemos em Luanda, bairro Boa Vista, um dos subúrbios da cidade. Continuamos a residir aqui e a resistir às brutalidades da nossa realidade social. Quanto à família, muito pouco podemos falar devido à frontalidade com que usamos nas nossas músicas e por razões de proteção preferimos não expor a família. Podemos avançar apenas que não queremos que os nossos filhos enfrentem os problemas que enfrentamos hoje. Quanto aos estudos, neste momento Vanderson é engenheiro informático, Timóteo é jurista e Daniel é técnico médio de contabilidade.
Se tivessem que falar dos vossos progenitores, o que diriam deles?
A geração de nossos progenitores foi educada a aceitar o regime político, pois vêm de uma luta de libertação, de uma guerra civil e de vários problemas sociais que surgiram, fruto do que se viveu em Angola. Porém, os nossos pais em particular fruto do grau de instrução – de certa forma ensinaram-nos a não aceitarmos tudo como uma verdade absoluta, e foi por eles que começamos a entender que somos parte desta sociedade e podemos mudá-la para melhor se todos entendermos que unidos somos mais.
Acham que os vossos pais contribuíram, de alguma maneira, para essa visão de consciência angolana? Se sim, de que forma?
Sim. Desde o momento em que eles nos educaram a conceber as nossas próprias ideias e a cultivar valores como solidariedade, união e defesa dos interesses dos mais fracos. Foi fundamental para a construção da visão de consciência que temos hoje.

Sabemos que têm irmãos. Como se articulam as vossas relações? Que recordações têm deles que nos gostariam de contar?
Temos boas relações com os nossos irmãos. Eles apoiam a causa, ouvem as nossas músicas, fazem críticas e nas suas actividades fazem também o ativismo social.

O vosso percurso não indicava que fossem parar à música. Como nos explicam isso?
Por vivermos no subúrbio, grande parte do que somos aprendemos observando a vida ao nosso redor. A música surge como escape e meio para transmitir às pessoas aquilo que vivemos. Portanto, quando éramos miúdos sentimos a necessidade de encontrar um meio que servisse de plataforma de exposição das nossas ideias. Foi quando cruzamos com a música rap, e com ela tivemos uma conexão forte que dura até hoje.

A música que fazem é grandiosa na mensagem interventiva. De que maneira gostariam que marcasse nos corações dos compatriotas, sobre tudo os da nova geração?
Queremos que as pessoas absorvam a mensagem que transmitimos, de modo a ajudá-las a mudar suas próprias realidades, contribuindo assim com a construção do novo angolano através da música. Neste sentido, pretendemos com a nossa música munir as pessoas de ferramentas para ultrapassarem o medo e afirmarem-se como um povo titular originário do poder soberano no país

Há uma veia profética no projeto, é isso?
Sim, pois ao analisarmos os factos sociais conseguimos identificar os problemas do futuro, porque nós acreditamos que o futuro se faz com o presente. O poder político em Angola tornou-se tão previsível nas suas acções que não é difícil prever a queda do regime ditatorial em Angola.

Que reações recebem dos fãs e admiradores sobre o vosso projeto musical?
As reações têm sido boas. Cada dia tem aumentado a abrangência do nosso projecto. Podemos dizer que aquilo que começou no bairro tem ganhado dimensão nacional e até internacional, o que significa que estamos no caminho certo, principalmente quando recebemos mensagens de incentivo, força e motivação por parte de várias pessoas, não só de Angola como também de outras partes do mundo.

Sentimos haver desde cedo, em vós, esse apetite de fazer da arte um instrumento ao serviço das vozes oprimidas como anota Jean-Paul Sartre ao discutir o engajamento da arte. É uma herança ancestral ou nasceu dos ventos do quotidiano?
Fruto da realidade que vivemos. O cotidiano levou-nos a reportar a nossa vivência no bairro, todos os dias temos estudado as melhores formas de continuarmos com essa linhagem, pois entendemos que a arte que fazemos pode salvar vidas e não existem outras escolhas diante das atrocidades que vivemos.

Há, então, essa verve por uma militância, um engajamento de sujeitos sociais e políticos desde cedo?
Com certeza. Desde que nos conhecemos como pessoas, estamos debatendo as mesmas questões, tanto de caráter social como político, pois desde a fatídica guerra civil, que ceifou milhares de vidas inocentes, vemos uma gritante desigualdade social, na qual uma elite minoritária enriquece cada vez mais à custa do erário público e a maioria sobrevive de migalhas, atirados à sorte em subúrbios. Por pertencermos ao segundo grupo, foi despertado em nós um espírito revolucionário e contestatário desde a tenra idade.

Por que vocês optaram por criar pseudônimos?
A opção resulta do costume na cultura Hip Hop em que estamos inseridos.

Acham que a tenra idade deixou marcas indeléveis que vos conduzisse para essa militância musical?
Sim, pois sempre foi uma luta pela sobrevivência e, ao entrarmos em contato com outras realidades através da TV e da internet, consumamos a ideia de que podemos viver sob condições melhores. O que precisamos fazer é exigir que os recursos que o país possui sejam bem explorados e haja consequentemente uma divisão equitativa dos rendimentos.
2. O ARCO- ÍRIS ANGOLANO
O que é, afinal, o “Fat Soldiers”?
É um grupo de amigos que escolheu fazer da arte um instrumento de libertação e educação cívica. Entendemos que vivemos uma ditadura, e uma das formas para despertar a consciência do povo é usando a música. O termo FAT é um acrónimo que significa Força, Amor e Trabalho, porém aproveitamo-nos da pronuncia em inglês por pura conveniência, e Soldiers tem o significado literal da tradução do inglês para o português. Portanto, juntamos o acrônimo em português e uma palavra em inglês para designar o grupo.
Supomos haver na teia do vosso projeto alguma influência de outros rappers africanos. Poderiam nos falar disso, também nos PALOP?
Fundamentalmente, tivemos influência de rappers como MCK, Ikonoklasta e Azagaia. De alguma forma, esses rappers contribuíram para o fortalecimento das nossas ideias e construção das nossas personalidades artísticas.
Quando olham para o percurso histórico angolano, sentem-se orgulhosos pelos ideais do movimento anticolonial? Conseguem, hoje, explicar o ambiente de fissuras e tensão constante no social angolano?
Por um lado, não nos sentimos orgulhosos com os ideais “do movimento anticolonial”, fundamentalmente pela discórdia que houve entre os movimentos de libertação, que resultou no incumprimento do acordo de Alvor. Por outro lado, louvamos o espírito que motivou os vários movimentos independentistas e a coragem que os nossos ancestrais tiveram para enfrentar o regime colonial. Quanto ao ambiente de fissuras, não é difícil dizer, tampouco diagnosticar, pois tratam-se de fissuras com evidência solar. Para isso, basta observar a constituição do tecido social angolano, que é composto por dois grupos: os governantes, que em função do poder tornaram-se os mais ricos do país; e o povo, que em função da sua condição é maioritariamente pobre, vivendo com menos de um dólar por dia, com um salário mínimo equivalente a 70 dólares. Este cenário tem se mantido até aos dias de hoje, fruto da política do medo que o governo tem implementado para fortalecer o poder com graves violações à dignida de humana, fraudes eleitorais, manipulações legislativas, violações à Constituição da República e demais factos que não se compatibilizam com uma República de Direito Democrático
Será que o período de luta armada nos PALOP e as guerras fratricidas exerceram alguma influência para o vosso ativismo artístico?
Com certeza, porque entendemos que as guerras travadas na África, entre irmãos da mesma pátria, não têm razão de ser. Para o caso concreto de Angola, tratou-se de um conflito de interesses de certos partidos, orquestrado pelas grandes potências mundiais em nome do petróleo e do diamante africano, aproveitando-se da ingenuidade do povo e da ganância dos partidos envolvidos.
Angola é um país rico, dizem, cuja história está ligada ao movimento anticolonial. Aliás, sem o qual a independência não seria possível. Quem é, na vossa ótica, o verdadeiro combatente da pátria? Dentre os dos PALOP, qual deles foi o mais carismático e cujo perfil de vida e liderança vos é exemplar?
Não existem dúvidas que Angola é um país rico. Quanto à história, não está ligada a um único movimento. Foram vários movimentos nomeadamente (FNLA, UNITA e MPLA). Quanto à independência, ela surgiria com ou sem estes movimentos, porque não há mal que dure para sempre e cremos que Deus, todo poderoso, não iria permitir que o regime colonial durasse para sempre. Por um lado, para nós não há como classificar um único líder de movimento, pois todos tinham inicialmente o mesmo objectivo, que era o de libertar o país das garras do colono. Para nós, no âmbito dos PALOP o líder exemplar é Samora Machel.
Que opinião têm sobre o colonialismo, apartheid e as guerras fraticidas, a globalização e o capitalismo?
Entendemos que o colonialismo, apartheid, acrescentando a escravatura, foram dos piores crimes contra a humanidade, se não os maiores crimes cometidos na história do planeta. Foi uma completa banalização do mal que chegou a coisificar o ser humano, reduzindo os africanos a meros instrumentos de trabalho. Hoje, apesar da pseudo independência d’África, ainda não estamos totalmente livres dessas formas humilhantes de exploração de homem para homem. Ainda há muito o que fazer para tornar a África um continente verdadeiramente independente, autossuficiente e um local onde seus filhos não sejam os mendigos do FMI. Grande parte dos governos africanos tornaram-se novas formas de opressão do povo africano e deliberadamente assumiram o poder para benefícios próprios, tornando assim necessárias e urgentes mudanças estruturais no continente. Quanto às guerras fraticidas, servem apenas para demonstrar que as pessoas que governam não estão preocupadas com a proteção da dignidade humana, mas, sim, com os interesses egoísticos. Quanto ao capitalismo e à globalização, entendemos que são irmãos e um não pode se dissociar do outro. Por conseguinte, achamos que o capitalismo é mais cruel na medida em que afoga os laços puros de homem para homem na água gelada do cálculo egoísta, deixando o rico cada vez mais rico e o pobre mais pobre, concentrando assim a riqueza num grupo reduzido de indivíduos. Precisamos nos proteger da globalização, principalmente do ponto de vista cultural, pois de um tempo a esta parte temos vindo a perder a identidade africana, como consequência do consumo excessivo de culturas alheias.
Quem possui um projeto tem um sonho. Qual é o vosso maior sonho?
O nosso maior sonho é ver Angola como um país democrático, com uma sociedade justa e paz social do ponto de vista material, no qual, antes de mais nada e acima de tudo, respeita-se e protege-se a dignidade da pessoa humana e a liberdade de pensamento.

Mia Couto, escritor moçambicano, detalha que a colonização adquiriu uma nova faceta, não tendo terminado, mas tendo novo estatuto e novo colonizador. Há laivos disso no vosso contexto?
Sim, porque o que vivemos hoje em Angola é uma extensão do espírito colonial que designamos por neocolonialismo e os sinais são evidentes. A título exemplificativo, temos o salário mínimo, que é o equivalente a 70 dólares e não cobre os produtos da cesta básica. Neste sentido, os poucos que trabalham não conseguem satisfazer as necessidades básicas da vida, e a maior parte da população é desempregada; não possui o mínimo para sua subsistência. Por outro lado, os governantes desfilam com carros luxuosos pelas estradas esburacadas, têm mansões e ostentam os títulos de mais ricos de África. Portanto, sim, vivemos ainda a colonização.

A juventude tem consciência disso? Que mensagens deixam para a tomada de consciência, a exemplo dos nossos nacionalistas, no passado?
A juventude angolana de alguma forma tem consciência disso, porém o medo de perder a vida no protesto faz com que não se entregue a ma causa. A grande mensagem que deixamos é que precisamos deixar de parte o medo e enfrentar a ditadura, certos de que venceremos.
Como acham que o vosso rap tem contribuído para uma formação sólida das novas gerações?
Através das nossas músicas, ajudamos as pessoas a compreenderem os fenômenos políticos e sociais que ocorrem à nossa volta, dando argumentos importantes para defesa dos seus direitos face às atrocidades do poder político.

Angola é um pais livre, democrático e de direito, cujas instituições advogam e atestam autonomia e separação de poderes, segundo as leis do país. O que sentem na pele de ativistas, por uma sociedade mais justa e igualitária, sem compadrio, mas de mérito?
Angola é um país de direito democrático apenas do ponto de vista formal. Quanto às
instituições, são apenas formalmente independentes, porque do ponto de vista material é visível a interferência do poder executivo no poder legislativo e no judiciário. O presidente da República é o primeiro violador da constituição e o arquiteto do sistema corrupto que se instalou em Angola. Somos todos os dias levados a crer que o PR e seu partido estão acima da lei e que os atos do executivo não são sujeitos à fiscalização da Assembleia Nacional, como consta de um acordão absurdo do Tribunal Constitucional. Portanto, não existe uma separação material entre os três poderes de soberania, apesar da constituição estabelecer o contrário formalmente.

Sentem-se como exilados no vosso próprio país?
Sim, porque em Angola o grande inimigo do povo é o próprio poder político, que, em vez de servir o povo, serve-se do povo.

Deixem, por favor, uma mensagem sobre a atual realidade socioeconômica e política de Angola
.
Neste momento, Angola está mergulhada numa crise econômica e financeira, fruto da baixa do preço do petróleo no mercado internacional e fundamentalmente da má gestão do país. Não existe dinheiro para satisfazer as despesas públicas, os preços dos produtos aumentam a cada dia, a população denuncia um desespero tangível porque a fome tem contribuído para o aumento da criminalidade e prostituição. Angola não produz nada, depende de importações, não existem dólares para os importadores comprarem os produtos de consumo imediato. Há denúncias de que o partido no poder já começou com a fraude eleitoral visto que estamos em ano pré-eleitoral – aprovando leis inconstitucionais e, por estarem em maioria absoluta no parlamento, conseguem aprovar o que bem entenderem e a oposição nada pode fazer, restando para a população e os grupos de pressão o papel de oposição política. Existem presos políticos em Angola, expropriações dos bens dos particulares sem justa indenização. A título exemplificativo, recentemente as Forças Armadas, numa acção de expropriação contra moradores de um bairro, assassinaram um menino de 14 anos, que não quis ver a sua casa demolida, com um tiro à queima roupa na cabeça, por ordem de generais que se reportam directamente ao Presidente da República.
3. POR UM PROJECTO EXCÊNTRICO
Não existe nenhum povo que se preze sem identidade, sendo a bússola para a caminhada e reconhecimento do outro e pelo outro. O que acham que tem sido feito, a nível cultural, para o efeito?
Infelizmente, achamos que pouco ou nada tem se feito para se preservar a identidade cultural de Angola. Acreditamos, inclusive, que o nosso país vem se tornando um dos mais aculturados de África, adotando para si a cultura ocidental, perdendo assim a sua própria identidade. É importante que as entidades de direito e a sociedade civil promova cada vez mais a sua própria cultura. Um fato que salta às vistas é a fraca valorização das línguas nacionais. Não notamos por parte do Estado um engajamento para sua introdução no ensino primário, por exemplo, estratégia que acreditamos que iria dinamizar o aprendizado por parte das gerações vindouras.
Quando se faz uma retrospectiva da luta de libertação dos PALOP, sente-se a dimensão atribuída à cultura na edificação do projeto de autonomia geopolítica. Hoje, ainda, a cultura é tão valorizada? Têm algum antídoto para mantê-la viva?
A cultura em Angola não é tão valorizada como foi naquele tempo, pois o partido no poder colocou grande parte dos agentes culturais a serviço da manutenção da ditadura. Só uma minoria que não aceita a ‘desgovernação’ de Angola ainda utiliza a arte como forma de protesto. Esse pequeno grupo tem mantido viva a cultura através de acções independentes.
Quem ouve o vosso primeiro álbum fica com a impressão de que a arte é vivida, pelos “Fat Soldiers”, como ativismo. Qual é, na verdade, a semântica veiculativa dele?
O grande significado é o valor que a vida deve ter para todos, porque entendemos que, se nem a vida inteira é suficiente para viver uma vida, então na nossa breve passagem por este planeta devemos viver a plenitude do que é bom, certo e justo, sem diferenças sociais que nos afastam da humanidade que nos é característica.
Para além da perspectiva artística têm outro propósito, finalidade?
O outro proposito é certamente o ativismo político e social, que neste momento constitui o fim último da música que fazemos.

Algum tempo já passou desde a publicação do primeiro álbum. Que balanço fazem do seu impacto, na esfera social e na liderança política, em geral?
Na esfera social o balanço é positivo, pois as pessoas compreenderam o objectivo do projecto e identificaram-se com a mensagem que cantamos. Sentimos que contribuímos para o crescimento da consciência crítica dos jovens que tomaram contacto com a obra. Quanto à liderança política, sentimos a reacção esperada que é de perseguição, não permitindo que as nossas músicas passem nos meios de comunicação públicos e privados a serviço do regime.

Parece haver um compromisso de intelectual engajado na vossa música. Sentem-se comprometidos na cidade das letras?
Com certeza há uma grande preocupação com a estética daquilo que escrevemos, dando alguma elevação intelectual ao conteúdo das nossas letras. Porém, temos também a preocupação de tornar a mensagem acessível para o público em geral, visto que grande parte da população angolana é analfabeta e não existe por parte do governo a preocupação de mudar este triste quadro.

Achille Mbembe, teórico camaronês, defende o devir africano no mundo, despertando negros para uma liderança pautada nos interesses coletivos, de modo a combater-se, dentre vários aspectos, a colonização do conhecimento, afastando perspectivas de altericídio (morte da alteridade). Que papel a vossa música emprestaria a este desafiante projeto?
Temos dito noutras entrevistas que a arte é uma linguagem universal e por meio dela podemos nos comunicar com todos os povos. De facto, nossa música visa à construção do novo africano.
Acham ser ainda possível concretizar o sonho de Nkrumah, num continente para os africanos e pelos africanos?
É possível, pois ainda não é tarde. É por essa razão que temos lutado por meio da arte, educando as pessoas a voltarem ao espírito de união que caracteriza o nosso continente.
Há estudiosos que defendem que a UA (União Africana) não passa de uma instituição cujos encontros se limitam a bom vinho e bacalhau à Gomes de Sá. O que poderia esta organização acrescentar para a resolução dos problemas do continente?
Concordamos com estes estudiosos, pois também sentimos que a UA não está a desempenhar o seu papel. Esta organização poderia contribuir para união dos povos africanos, fortalecer a economia africana, acabar com a dependência ocidental e, fundamentalmente, elaborar políticas para pacificação das zonas de conflito.
Sentem-se jovens realizados ou frustrados?
Talvez o termo frustrado possa transmitir um sentido pejorativo ao nosso posicionamento diante dos factos que acontecem à nossa volta. Porém, diríamos que nos sentimos injustiçados e no direito de reclamar mudanças urgentes no cenário político angolano.
Com que Angola ainda sonham, para que sintam os vossos ideais realizados?
Sonhamos com uma Angola onde o respeito pela dignidade este ja acima de todos os valores e exista uma distribuição igualitária da riqueza.

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